CRÔNICA DO COTIDIANO DE UM PROFESSOR: A CORRENTE DO TEMPO!
Em minha sala de aula, o quadro-negro não é o único suporte. O maior quadro está invisível, desenhado no ar, e nele tento inscrever, com o giz da voz, a lição mais urgente: a do tempo. Falo aos meus jovens sobre o instante sagrado, o segundo que escorre entre os dedos e não volta mais. E, olhando para aqueles rostos cheios de amanhãs, confesso: em mim, o futuro já fez as pazes com o passado. O segundo tempo da partida já começou, e o apito do juiz é um sopro discreto no ouvido. Não há mais margem para o desperdício. Cada minuto de lucidez agora é uma conquista, um oásis de sobriedade no meio do ruído frenético do mundo.
Os pais, aqueles pilares, vão indo. Subimos, sem alarde, para a frente da fila. A casa, outrora ecoante de vozes infantis, agora sussurra. Restamos nós dois, meu amor e eu, com um resto de saúde que é um presente. É o suficiente. Suficiente para sonhar um itinerário, para rir de uma bobagem antiga, para um sorriso que é um aceno de cumplicidade.
Mas a sala de aula segue sendo meu canteiro. Acredito, com a teimosia dos ingênuos que mudam o mundo, que meu ofício é esparramar sementes. Não sementes de certezas, mas de esperança inquieta. Ainda há lenha para queimar nesta fogueira, tantos corações jovens para tocar, nem que seja com uma centelha. Fui forjado nas teias do afeto. Minha mãe, agora uma estrela com cheiro de jardim, me legou a herança maior: a licença para sentir e amar.
Deixei para trás os grilhões de uma criação que via brandura como fraqueza. Superei o patriarcado à minha maneira, não com um grito, mas com um abraço que desarma. Hoje, não há barreira entre o peito e a palavra. Se amo, declaro. Se agradeço, proclamo. Por que guardar tanta nobreza no cofre silencioso do peito, se o tempo é um ladrão de descuidados, que sai sem pedir licença? Um dia, a porta se fecha. E o “até logo” pode ser um “para sempre” disfarçado.
Chorarei as lágrimas necessárias. Meus olhos já não têm represas, apenas leitos de rio, prontos para a cheia da emoção. Mas também gastarei meu rosto em sorrisos. Darei gargalhadas tão vastas que escorrerão pelos cantos dos olhos. Tenho um profundo respeito pelas dores que me talharam e me moldaram, pois me deram forma, forjado, às vezes, na luta e na dor. Mas, sem medo de errar, cultuo com mais devoção ainda as risadas incontidas, a piada no momento exato, o prazer simples da presença.
E a gente vai aprendendo, no curso da vida, que o que tem valor não se pesa, não se compra. Fixa-se na liga invisível do coração. Sua cédula é o amor, e seu tilintar é o som de uma voz querida. Podem me chamar de piegas, de antiquado. Já não faço questão do capricho das palavras; faço questão do seu destino.
Acredite: no fim, darei bons risos do conjunto da obra. E talvez então, quem sabe, alguns percebam que eu não falava do tempo dos relógios, mas do tempo do coração. O sol nascerá sem a nossa permissão. O mundo seguirá, belo e indiferente. E nosso eco, por mais amado, se dissipará no vento. Daqui a pouco, nem saudades seremos. Por isso, a hora é agora, esta hora exata, que bate no seu relógio enquanto lê.
A hora de deixar transbordar o afeto reprimido, contido, represado, acorrentado. De surpreender com o gesto inesperado: o abraço apertado, a palavra precisa, o telegrama do coração enviado sem demora. É preciso correr atrás do tempo que foge, sim, mas não com agonia. Com a doce urgência de quem sabe que o agora é o único lugar onde se pode plantar a eternidade de um instante, é onde a gente mora. O ponto final é só um detalhe. O que importa é o correr da frase, do abraço, da vida...


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