UMA CRÔNICA DE UM DIA QUALQUER...
Um dia que se finge comum, desses de pouca pressa e agenda mansa. Um desses primeiros dias do ano em que o tempo ainda ensaia seu passo. A vontade, porém, é de não se deixar levar pela maré morna. Preciso ser útil, fazer alguma coisa, por mais singela que seja: plantar um pé de manjericão, concluir um pequeno acordo, atender um pedido, dar um conselho à amiga, ver um filme que há tempo espera, dar uma nova demão de verniz naquele banco antigo, escrever algumas linhas. Ou tudo isso junto, em sequência, como quem monta um colar de miúdas contas, só para sentir que o fio do dia não escorrega entre os dedos sem peso nem forma.
Eis que, no sol forte das três da tarde, percebo que tudo se cumpriu. A lista miúda está riscada. E agora? O dia ainda tem pernas, e eu fico com esse inquieto dilema no peito: a necessidade quase física de render, de justificar a existência com algum produto, algum gesto mensurável. Então me assalta a pergunta inevitável: e no dia em que a utilidade secar? Bom, nesse dia ainda terei as canções que não dependem de ouvidos alheios, as crônicas que nascem do puro hábito de olhar e a vontade pulsante de escrever, os versos que são um murmúrio entre eu e o mundo. Farei o que as energias do corpo e da alma ainda permitirem.
É curioso como a mente humana pode ser cruel consigo mesma, armando essa cilada: a de que somos apenas o que produzimos, que o valor da vida se mede em movimento, em serviço, em suor. Sofremos tanto com essa ânsia de parecer úteis, visíveis, ativos, que esquecemos, às vezes, o simples ofício de existir, sem dívida interior, sem prestação de contas.
Paro, matuto um pouco mais, e aí vem uma doce e súbita claridade: é preciso reservar um tempo para usufruir do próprio tempo. Um tempo conquistado lá na frente, com saúde, com olhar desperto, com criatividade que não precise de aplausos. Viajar mais, sem destino obrigatório. Ter horas largas para mim e para os meus, livres dessa cobrança íntima que insiste em nos chicotear mesmo depois de tanto caminho andado. É preciso achar gosto e alegria nas coisas miúdas, para muitos sem valor.
Como já disse um dia, a vida é boa porque ainda tem biscoito frito, cheiro de café coado, tem fruto para ser colhido na mão, carinho da pessoa amada, tem risos guardados para eclodirem na hora certa (que é toda hora). Que eu não me deixe acorrentar no cárcere do tempo útil, em que só valho alguma coisa que for produtivo e eficaz. Se for feliz, já é mais que o bastante.
Se o Criador me conceder a velhice, que eu saiba recebê-la, não apenas como um resto de viagem, mas como a parte mais sábia do passeio. A vida é uma travessia, às vezes áspera, mas sempre cheia de sentidos escondidos nas esquinas. Que, quando eu tiver tempo que ainda dê tempo! E eu possa simplesmente sentar na área externa e deixar que o dia, em forma do canto das curicacas ou mulatas, qualquer dia comum, me visite sem pedir nada em troca, a me exigir utilidade.


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