CRÔNICA: A ANGÚSTIA DO INGLÊS INGLORIOSO
Há uma epidemia silenciosa nos corredores envidraçados das corporações brasileiras. Não é um vírus comum, mas sim um mal do espírito, uma coceira no ego que só se alivia com a aplicação tópica de termos ingleses em frases perfeitamente portuguesas. Observo, não sem certa irritação contida, ou, como se diz por aí, “low profile”, essa compulsão por adornar o discurso com anglicismos desnecessários, como se cada “briefing”, “deadline” e “feedback” fosse uma pequena medalha de sofisticação cravada no peito.
É um fenômeno curioso: a pessoa que,
na padaria, pede um “pão francês” com maestria, entra na sala de reuniões e se
transforma. A reunião vira meeting (ou pior, “call” para algo que poderia ser
um e-mail). O prazo vira deadline, uma palavra que, cá entre nós, soa mais
ameaçadora e funesta do que nosso bom e velho “prazo final”, parecendo nome de
série com zumbis ou uma fatídica sentença de morte. A oportunidade vira
opportunity, o relatório vira report, e o pobre do ponto de vista, tão claro e
objetivo, é sumariamente exilado em favor do insight que muitas vezes é apenas
um pensamento óbvio dito com ar de descoberta científica.
Parece existir a crença de que o
termo em inglês é mais preciso, mais técnico, mais business. É uma ilusão
perigosa. Na maioria esmagadora dos casos, trata-se de pura afetação, uma
síndrome de vira-lata intelectual que nos faz acreditar que o conhecimento só é
válido se embalado em celofane importado. É a síndrome do cachorrinho, como
muito bem apontado: balançamos o rabo e latimos em outro idioma na esperança de
ganhar um biscoito do dono estrangeiro, real ou imaginário.
As instituições, claro, são
cúmplices. Divulgam vagas para “gerente de marketing para fazer o forecast do
próximo quarter, com skills de leadership e mindset disruptivo”. Ora, parem um
minuto! Não temos “previsão para o próximo trimestre, com habilidades de
liderança e mentalidade inovadora”? Claro que temos. E soa melhor, soa mais
nosso, soa inteligente sem precisar ser pedante.
Essa compulsão não é mero modismo
inofensivo. É, no fundo, um desrespeito. Um desresprezo à riqueza da língua
portuguesa, que possui vocábulos fortes, precisos e belos. Um menosprezo à
nossa própria cultura, como se o que é nosso, por ser nosso, fosse inferior.
Denota, sim, uma baixa autoestima coletiva, a ideia de que só brilhamos
refletindo a luz alheia.
Vamos a alguns exemplos de resgate
possível, um pequeno checklist para a sanidade linguística:
-
Feedback: Parecer, avaliação, retorno, comentários. “Preciso do seu feedback”
soa robótico. “Preciso do seu parecer” soa ponderado.
-
Briefing: Instruções, diretrizes, orientações. Que mistério há numa “sessão de
orientação”?
-
Brainstorm: Tempestade de ideias, chuva de ideias. Até soa mais poético e
criativo.
-
Workshop: Oficina, seminário prático. Oficina remete a construção, a fazer com
as mãos. É perfeito.
-
Budget: Orçamento. Uma palavra clara, conhecida e poderosa.
-
Stakeholder: Parte interessada, interlocutor. Descreve exatamente a função.
-
Core business: Negócio principal, atividade-fim. Direto e sem firulas.
-
Insight: Intuição, percepção, lampejo. “Tive um lampejo” tem até mais
dramaticidade.
-
Deadline: Prazo final, data limite. Menos macabro e mais direto.
-
Turnover: Rotatividade (de pessoal). Todos entendem perfeitamente.
Não se trata de ser contra o inglês
ou de negar a globalização, afinal sou, inclusive, professor de ingês (vejam
que paradoxal). Antes de tudo, apesar de não um idioma legitimanmente nacional,
pois também é estrangeiro e oriundo de uma imposição de dominadores, também sou
amante e professor de Língua Portuguesa. A mim, trata-se apenas de usar o
cérebro e o bom senso. Trata-se de não confundir necessidade com exibicionismo.
Um termo técnico genuíno, sem equivalente exato, é uma coisa. Substituir
“fazer” por “make it happen” é pura pose. Como regra, estrangeirismo, no estudo
amplo da língua, é um mero vício de linguagem.
No fim das contas, quem realmente
domina um assunto complexo é capaz de explicá-lo na própria língua. A
verdadeira sofisticação intelectual não precisa de enfeites estrangeiros. Ela
se sustenta na clareza, na precisão e no respeito ao instrumento que usamos
para pensar: a nossa língua materna.
Portanto, sugiro um movimento. Na
próxima reunião, ao invés de pedir um “quick follow-up”, proponha uma “rápida
atualização”. Em vez de falar em “deliverables”, fale em “resultados”. Observe
os olhares. Alguns podem ter um brilho de surpresa. Outros, de alívio. Talvez,
quem sabe, você inspire não um mindset novo (contém ironia), mas simplesmente
um pensamento claro que, no mundo corporativo de hoje, é a verdadeira
disrupção. Sei que alguns vão se incomodar com minhas opiniões. Faz parte do
contraditório sagrado dado a quem pensa e possui identidade própria.


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