CRÔNICA: A ANGÚSTIA DO INGLÊS INGLORIOSO

10:57 Professor José Luiz 0 Comments


Há uma epidemia silenciosa nos corredores envidraçados das corporações brasileiras. Não é um vírus comum, mas sim um mal do espírito, uma coceira no ego que só se alivia com a aplicação tópica de termos ingleses em frases perfeitamente portuguesas. Observo, não sem certa irritação contida, ou, como se diz por aí, “low profile”, essa compulsão por adornar o discurso com anglicismos desnecessários, como se cada “briefing”, “deadline” e “feedback” fosse uma pequena medalha de sofisticação cravada no peito.

É um fenômeno curioso: a pessoa que, na padaria, pede um “pão francês” com maestria, entra na sala de reuniões e se transforma. A reunião vira meeting (ou pior, “call” para algo que poderia ser um e-mail). O prazo vira deadline, uma palavra que, cá entre nós, soa mais ameaçadora e funesta do que nosso bom e velho “prazo final”, parecendo nome de série com zumbis ou uma fatídica sentença de morte. A oportunidade vira opportunity, o relatório vira report, e o pobre do ponto de vista, tão claro e objetivo, é sumariamente exilado em favor do insight que muitas vezes é apenas um pensamento óbvio dito com ar de descoberta científica.

Parece existir a crença de que o termo em inglês é mais preciso, mais técnico, mais business. É uma ilusão perigosa. Na maioria esmagadora dos casos, trata-se de pura afetação, uma síndrome de vira-lata intelectual que nos faz acreditar que o conhecimento só é válido se embalado em celofane importado. É a síndrome do cachorrinho, como muito bem apontado: balançamos o rabo e latimos em outro idioma na esperança de ganhar um biscoito do dono estrangeiro, real ou imaginário.

As instituições, claro, são cúmplices. Divulgam vagas para “gerente de marketing para fazer o forecast do próximo quarter, com skills de leadership e mindset disruptivo”. Ora, parem um minuto! Não temos “previsão para o próximo trimestre, com habilidades de liderança e mentalidade inovadora”? Claro que temos. E soa melhor, soa mais nosso, soa inteligente sem precisar ser pedante.

Essa compulsão não é mero modismo inofensivo. É, no fundo, um desrespeito. Um desresprezo à riqueza da língua portuguesa, que possui vocábulos fortes, precisos e belos. Um menosprezo à nossa própria cultura, como se o que é nosso, por ser nosso, fosse inferior. Denota, sim, uma baixa autoestima coletiva, a ideia de que só brilhamos refletindo a luz alheia.

Vamos a alguns exemplos de resgate possível, um pequeno checklist para a sanidade linguística:

- Feedback: Parecer, avaliação, retorno, comentários. “Preciso do seu feedback” soa robótico. “Preciso do seu parecer” soa ponderado.

- Briefing: Instruções, diretrizes, orientações. Que mistério há numa “sessão de orientação”?

- Brainstorm: Tempestade de ideias, chuva de ideias. Até soa mais poético e criativo.

- Workshop: Oficina, seminário prático. Oficina remete a construção, a fazer com as mãos. É perfeito.

- Budget: Orçamento. Uma palavra clara, conhecida e poderosa.

- Stakeholder: Parte interessada, interlocutor. Descreve exatamente a função.

- Core business: Negócio principal, atividade-fim. Direto e sem firulas.

- Insight: Intuição, percepção, lampejo. “Tive um lampejo” tem até mais dramaticidade.

- Deadline: Prazo final, data limite. Menos macabro e mais direto.

- Turnover: Rotatividade (de pessoal). Todos entendem perfeitamente.

Não se trata de ser contra o inglês ou de negar a globalização, afinal sou, inclusive, professor de ingês (vejam que paradoxal). Antes de tudo, apesar de não um idioma legitimanmente nacional, pois também é estrangeiro e oriundo de uma imposição de dominadores, também sou amante e professor de Língua Portuguesa. A mim, trata-se apenas de usar o cérebro e o bom senso. Trata-se de não confundir necessidade com exibicionismo. Um termo técnico genuíno, sem equivalente exato, é uma coisa. Substituir “fazer” por “make it happen” é pura pose. Como regra, estrangeirismo, no estudo amplo da língua, é um mero vício de linguagem.

No fim das contas, quem realmente domina um assunto complexo é capaz de explicá-lo na própria língua. A verdadeira sofisticação intelectual não precisa de enfeites estrangeiros. Ela se sustenta na clareza, na precisão e no respeito ao instrumento que usamos para pensar: a nossa língua materna.

Portanto, sugiro um movimento. Na próxima reunião, ao invés de pedir um “quick follow-up”, proponha uma “rápida atualização”. Em vez de falar em “deliverables”, fale em “resultados”. Observe os olhares. Alguns podem ter um brilho de surpresa. Outros, de alívio. Talvez, quem sabe, você inspire não um mindset novo (contém ironia), mas simplesmente um pensamento claro que, no mundo corporativo de hoje, é a verdadeira disrupção. Sei que alguns vão se incomodar com minhas opiniões. Faz parte do contraditório sagrado dado a quem pensa e possui identidade própria.

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