CRÔNICA DO COTIDIANO DE UM PROFESSOR: BOM VELHINHO?

08:47 Professor José Luiz 0 Comments


Há um homem, um ancião, que invade nossas casas todos os dezembros. Não pela porta, mas pelos ouvidos e pelos olhos das crianças. Ele traz uma roupa pesada de neve que nunca vimos, desce por chaminés que não temos, ao som de um “ho ho ho” gravado em lojas de departamento. É o Bom Velhinho, sim, mas um senhor um tanto estranho: com marcas que não traduzem nossa realidade.

Dizem que ele mora no Polo Norte, mas eu suspeito que sua fábrica real fica nos porões do Mercado. Lá, forjam-se não apenas brinquedos, mas um feitiço poderoso meticulosamente pensado e colocado em prática: o encantamento que transforma desejo em obrigação, alegria em transação, em sedução mercadológica, e o menino Jesus na plateia secundária de seu próprio aniversário. O mito é eficiente. Seduz, unifica o desejo global por um trenó, e convence a todos de que a felicidade cabe em uma caixa embrulhada para presente.

E assim, a noite de Natal, que deveria ser de introspecção reflexiva, talvez silenciosa, com assombro diante do mistério de um recém-nascido numa manjedoura, transforma-se na grande noite da entrega logística. A estrela de Belém é ofuscada pelo piscar das luzes de LED da árvore. Os anjos cantam jingles. E o que deveria ser renovação e esperança torna-se a cerimônia anual da aquisição.

Nesse período do ano, sempre pedi a meus alunos e alunas que deixem-me conduzi-los para fora da cena encantada, afastando a cortina de neve artificial. Eu os convido a olhar ali, não muito longe da ruas iluminadas: as manjedouras modernas. São palafitas que balançam sobre esgotos, barracos de lona rasgada pelo vento, colchões sobre lajes geladas. Quantas crianças nestas manjedouras aguardam, não um presente específico, mas o milagre banal de um dia sem fome? Elas não escrevem cartas para o Polo Norte. Seus pedidos são sussurros engasgados que o vento leva.

Eis a crueldade do conto de fadas mercadológico: ele cria a fantasia de uma recompensa universal, mas a entrega apenas aos que podem pagar o ingresso. Pior: sussurra nos ouvidos da sociedade que aqueles que nada recebem é porque, de algum modo, não foram bons o suficiente. Às favas com essa meritocracia do absurdo, que premia o corredor que já nascia na faixa de chegada! É uma corrida onde alguns largam nos últimos metros, com os pés atados e a visão turva pela necessidade.

Neste tempo de “corações brandos”, surge a caridade sazonal. É nobre, sem dúvida. Um gesto quente num mundo frio. Mas cuidado para que o pacote de Natal não seja apenas um tranquilizante para a nossa consciência. O Mestre, cujo nascimento nominalmente comemoramos, não pregava a esmola que humilha, aquela pirotécnica em que clama por aplausos e flashes, mas a justiça que liberta. Ele não dizia “dê o seu velho brinquedo ao pobre uma vez por ano”. Ele dizia “ame o seu próximo como a si mesmo” e amor não é gesto pontual, é arquitetura social, é construção diária e ininterrupta.

A verdadeira revolução do espírito natalino seria, portanto, deixar o Papai Noel descansando suas botas. E, em seu lugar, que possamos encarnar um pouco daqueles Reis Magos, que saíram de seus confortos para buscar um rei diferente, em um lugar improvável. Que nossa jornada seja em direção às manjedouras de hoje. Não para deixar um presente e fugir, mas para ver, de verdade, o rosto da criança que há nelas e refletir sobre nossas culpas e omissões e o que podemos fazer para mudar essa realidade cruel.

A caridade? Que venha, sim. Mas que chegue depois, e como fruto da justiça social. Justiça que é igualdade de oportunidade, é acesso à educação digna, é saúde, é teto. É o sistema corrigindo, conscientemente, seus próprios vícios históricos, suas exclusões. É a sociedade entendendo que acolher os excluídos modernos, os marginalizados, os favelados, os “diferentes”, não é “esmola”, é reparação.

Que no Natal, convido os meninos a refletirem e que possamos trocar o “ho ho ho” por um silêncio contemplativo. Olhar para o presépio original e lembrar: tudo começou com uma família sem lugar na estalagem, recebendo visitas de pastores com cheiro de campo e animais. Nada de glamour. Nada de consumo. Apenas a potência brutal da vida que irrompe na fragilidade, na simplicidade de um momento sublime.

Que o amor, de fato, ocupe nossas vidas. Não o amor romantizado e embrulhado em papel brilhante, mas o amor corajoso que não se faz indiferente à dor do outro. O amor que, antes de lançar um olhar condenatório, pergunta: “Qual é a tua história? Como chegaste a esta manjedoura?”. Lembro-me que, há tempos, fiz uma reflexão semelhante em uma missa de Natal e fui duramente questionado por tentar destruir a imagem do velho Noel, comprovando a “calcificação” de um pensamento secular, competentemente erigido ao longo do tempo. Como rebelde, como sempre fui rotulado, creio em um Deus amoroso que deixou exemplos em quem ousamos chamar de Mestre.

Pensamentos rasos geram preconceitos e correntes de ódio. Preconceitos erguem muros onde deveria haver pontes. E é nas pontes, não nos muros, que se encontra o verdadeiro espírito daquele que, afinal, era apenas um recém-nascido pobre, em uma noite qualquer, que prometia uma nova alvorada para a humanidade. Uma alvorada que ainda aguardamos, sob o guarda-chuva da esperança que nunca deve morrer.


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