CRÔNICA DO COTIDIANO DE UM PROFESSOR: O QUE SOU EU SEM Wi-Fi?
Fim de ano letivo. O cansaço é real, a correria também. Mas nestes dias, em sala de aula, propus um último exercício, um último mergulho: “O que eu sou sem o Wi-F
i?”.
i?”.
Silêncio. Uns olhares de espanto. A pergunta soou quase como uma heresia para aquelas gerações nascidas com um roteador como extensão do lar. Mas então, canetas começaram a roçar o papel. E o que floresceu não foi um lamento pela desconexão, mas um desabrochar de almas, em versos bonitos e cheios de significados.
Neste dia, apenas meninas vieram às aulas. Das mentes e corações das minhas alunas, brotaram pérolas. Poesias que falam de silêncio que assusta mas também acalenta, de ter que encarar os próprios pensamentos “barulhentos”, de redescoberta do cheiro da chuva no quintal, do gosto amargo (e doce) da própria companhia. Sobre a angústia de se sentir “invisível” para o mundo digital e, ao mesmo tempo, a libertação de ser visível apenas para si mesma. Há versos que cortam: “Quando o Wi-Fi, eu volto pra mim / A vida respira num toque sem fim.”
É fácil (e muitas vezes justo) pintar a juventude com as cores da distração superficial, do vício em telas. Mas hoje elas me lembraram, com a força quieta da poesia, do talento descomunal que habita a juventude. Da sensibilidade aguçada, da capacidade de transformar angústia contemporânea em arte pura, do sonho que teima em brotar mesmo no asfalto digital.
Que privilégio indescritível ser professor. Ter a licença de testemunhar esses lampejos de genialidade, de ver o pensamento crítico e o sentimento mais puro se fundirem em cadernos rabiscados às pressas, nos últimos dias de aula.
A juventude segue me encantando. E assim, ela me ensina que, talvez, a conexão mais vital não precise de senha. Precisa apenas de um coração disposto a se escutar.


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