José Luiz
GRANDE HOMEM
Pessoa simples, de andar trôpego, sorriso largo, vai, montado em sua bicicleta antiga, acenando para os que cruzam seu caminho. Simpatia de um homem sábio, alto, de uma rusticidade serena, de palavras fartas, posições firmes, componentes de uma personalidade singular que não passa despercebida nas rodas que frequenta. Trabalha a semana toda erguendo paredes, preparando concreto, cobrindo casas. Nos sábados, assenta outros tijolos: organiza a sopa que é distribuída aos carentes, desde crianças a moradores de rua. É um pregador por natureza, possui uma voz elevada que todos param para ouvir. Ensina que as “belezas de Deus” imperam sobre a vida das pessoas e que os elogios nem sempre são o que ajudam de fato, pois, de repente, nem se é tudo aquilo que falam para a gente. Sente um orgulho passional por seus filhos. Diz que um homem bom, que às vezes pernoitava na rua impelido pela força do álcool, ensinou-lhe o ofício, entregando-lhe uma colher (de pedreiro) nas mãos, razão pela qual, hoje ostenta, com altivez, os diplomas de dois filhos formados.
Mas, bonito mesmo é ver é sua paixão escancarada pela congada. Há dezenas de anos, dirige um grupo que se reúne, de vez em quando, para apresentar a fé e a tradição de uma gente que insiste em manter vivo esse costume, oriundo dos escravos que penavam nas senzalas brasileiras. Dia desses, foi convidado a treinar as crianças da escola. Primeiro, deu uma espécie de minicurso para que os alunos entendessem a história do Congo e respeitassem a tradição. Já se apresentaram em tantos lugares. Impressiona ver meninos “custosos” passarem a se comportar melhor e se destacarem portando roupas coloridas e instrumentos artesanais, numa ordenação quase perfeita, sincronizados pelas batidas ritmadas do som rouco do couro surrado dos tambores.
Assim sua vida vai sendo tocada por amores distintos, mas que se ligam umbilicalmente pela devoção e fé. Que bom tê-lo como compadre. Que bom tê-lo como amigo.
É isso aí!
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