José Luiz

16:39 José Luiz 0 Comments

VIVENDO

Ele chega meio desconfiado, como se não quisesse perturbar, com receio de estar incomodando. Senta-se ao lado, puxa uma conversa tímida, fala do tempo e outros assuntos corriqueiros. Quando percebe que há uma recíproca, com seu cabelo prateado, sua voz rouca e mansa, seu sorriso vivo, vai contando suas experiências do passado, de um tempo em que as coisas tinham outra dinâmica. Não é tão saudosista como os anciões que encontramos por aí, que vivem a lamentar a nova era e inflam de elogios os tempos idos. Não! Ele acredita que muita coisa boa veio para melhorar a vida da gente. Sempre cita a medicina, os meios de comunicação e os transportes como exemplos. Fala, do alto de sua coluna curvada, que hoje se vive bem melhor, apesar do comportamento estranho de muitas pessoas.

Ao longo dos anos, adquiriu uma sensibilidade própria e um jeito peculiar de analisar o mundo. Faz questão de dizer que já foi cheio de marra e teimosia, mas que agora compreende melhor os outros e suas manias. Diz, com satisfação, que consertou muitos defeitos seus, apesar de ainda ter alguns que precisam de reparos. É temente a Deus e vive a agradecer, segundo ele, o pouquinho de saúde que ainda tem: o suficiente para cuidar de suas obrigações e ficar inventando umas coisinhas para fazer. Conta que já viveu muitas aventuras e infortúnios, sofreu quedas e alcançou vitórias, mas que, depois dos filhos todos criados, não é preciso tanta pressa. Vê-se que gosta mesmo é de prosear, jogar truco na mesa de cimento da praça e assistir jogos de futebol, pois sabe de cor a tabela do campeonato. Outra coisa que aprecia muito é acompanhar a política pela TV Senado. Lê os jornais da semana e ouve atentamente as notícias locais pelo rádio, na hora do almoço. Juntos com os remédios que toma diariamente, essas coisas colaboram na sua vitalidade.

Fico feliz quando o vejo chegando. Não tem problema se tenho tarefas a cumprir, deixo-as suspensas por um tempo. Ele merece cada segundo dedicado. Quem ganha mais sou eu, que tenho o privilégio de usufruir de suas doses fartas de sabedoria e generosidade. Como são bacanas nossos velhinhos! Todos nós, se assim o Criador permitir, chegaremos lá um dia. Espero, quando este tempo chegar, encontrar gente que também me dedique um pouco de atenção.

É isso aí!

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José Luiz

10:14 José Luiz 1 Comments

PRESSA

Amigos, que loucura! O ano já está terminando. Estamos às vésperas do período natalino, já começando a tirar das caixas os enfeites para montar a árvore da Natal. O tempo voa. Parece sandice, mas tem-se a impressão de que os dias nunca passaram tão rápido. Acredito que deva ser pelo turbilhão de afazeres que nos cerca todos os dias. É tanta coisa para realizar, com prazos definidos e finalidades pré-estabelecidas, que ficamos mergulhados até o pescoço, apenas com a cabeça de fora, clamando por um pouco de ar. O mundo virou uma pressa só, tudo com hora certa para entregar, com metas a cumprir.

Daqui a pouco chega o próximo ano. Tudo faz parte de um eterno recomeço. Novos projetos chegarão e outros ganharão nova oportunidade de concretização. No afogadilho de vidas corridas, vamos tentando dar contorno a um jeito contemporâneo de sobreviver em meio às intempéries de uma era movida pela sofreguidão, por um grande afã. Em razão de um projeto de vida, de fazer um “pé de meia”, muitos se afastam da família, deixam de ver o crescimento dos filhos, motivados pela conquista de um futuro melhor. Somente eles saberão dizer se valeu a pena. Em meio a tanta correria, é preciso encontrar tempo para as coisas que preenchem de sentido as nossas vidas. Amar exige dedicação, exige uma parada, um respirar mais sossegado. Há um risco iminente de sermos pegos desprevenidos pelos últimos instantes de vida e enxergamos grandes castelos de concreto construídos à custa de muito suor e labuta, em detrimento de uma construção formada de emoções frágeis e mal vividas. Fiquemos atentos, enquanto dá tempo.

É isso aí!

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José Luiz

11:00 José Luiz 2 Comments

HUMOR A TODO CUSTO.

Posto que tudo que se fala hoje pode amanhã cair na vala do esquecimento, alguns se julgam no direito de, contrariando a onda do “politicamente correto”, proferir toda e qualquer verborragia a respeito da vida alheia. Vejam o que ocorreu com o apresentador de televisão Rafinha Bastos que foi protagonista de um evento um tanto quanto sui generis e de péssimo gosto. Fez uma brincadeira com uma determinada artista grávida que ultrapassou todos os limites do bom senso e do respeito. Claro que a família da moça sentiu-se ultrajada e profundamente ofendida pelo humorista de plantão. Colegas de bancada também declararam que as palavras vomitadas por Rafinha provocaram mal-estar até mesmo na própria equipe, o suficiente para darem um basta no Bastos (trocadilho infame).

Não devemos cercear o direito das pessoas se manifestarem, mas os princípios da ética nos orientam que devemos fazer ao outro aquilo que gostaríamos que o outro fizesse a nós, ou, numa atitude mais passiva, não fazer, nem falar, ao outro aquilo que não gostaríamos que fizessem a nós e aos nossos. Os defensores do apocalipse irão argumentar que qualquer espécie de limitação aos jornalistas seria um retorno à censura. Em nome desta liberdade extrema, defendem todo e qualquer tipo de expressão, mesmo as mais absurdas e imorais. Concordo com o direito e dever de expor os pontos de vista que nos convém, desde que o que for dito não fira os direitos do semelhante, nem venha constranger as pessoas com ferinas declarações.

Em tempos de redes sociais e comunicações avançadas, é momento de repensar os parâmetros que norteiam a convivência humana, para que não haja injusta destruição de reputações, nem desconstrução de histórias erguidas à custa de muita luta e suor.

É isso aí!

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José Luiz

15:12 José Luiz 0 Comments

CRIANDO...

É espantosa a capacidade de alguns em criar factoides e dar vazão a fatos e “armações” que só existem na cabeça de quem os originou. Imaginam situações, diálogos, posicionamentos, atitudes e saem espalhando como se tudo fosse extremamente crível e verdadeiro. Sequer consultam as partes e se atrevem a, inclusive, divulgar a todos os cantos episódios que nunca tiveram parentesco com a realidade, beirando a falta de responsabilidade, dado o teor de algumas dessas estórias.

Sempre que ocorre um fato novo ou algo que escapa à normalidade, é natural imaginar as razões que levaram tais circunstâncias a se desenrolarem. Pensamos, confabulamos... tudo muito natural quando tomados pelo imprevisto. Mas, sempre tem aquele que, achando-se detentor de toda a malícia do mundo, vem com teorias e explicações - as mais esdrúxulas possíveis - como se tivessem todas as respostas, muitas vezes com justificativas conspiracionistas e fabulosas.

É artigo essencial da convivência humana, o dom da paciência, da temperança, do ouvir sem emitir resposta pronta encharcada pela cólera. Não é tarefa das mais fáceis. Diante disso, que todos saibam tirar o máximo de proveito desta tão desgastada virtude, para não se deixar levar por sentimentos controversos e inflamados. Devolver com a mesma verborragia só faz-nos mais parecidos com quem empresta a vida ao mister de desagregar.

É isso aí!

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José Luiz

17:14 José Luiz 0 Comments

PAIXÃO

Que força é esta que leva o ser humano até as últimas consequências? Que dínamo vigoroso é este que rejuvenesce a alma humana, levando-a aos píncaros da criatividade e da boa emoção? Que entusiasmo é este que teima em não se abater mesmo diante das negativas do mundo? Dá-se o nome de paixão a esse estado privilegiado de espírito, de quem crê apesar de todas as adversidades, dos que mantém viva a esperança perante todo e qualquer percalço, de quem enxerga vida onde tenta prevalecer a aridez da morte.

A paixão é sentimento nobre, força que impulsiona o homem, a mulher, a persistir na busca de um objetivo, a insistir num projeto que só o mentor vê fundamentos. Paixão é melodia que encanta o coração daquele que vê sentido em tudo o que faz e que o faz se entregar com tal fervor às causas, que é capaz de induzir outros milhares a seguir junto; é dedicar-se sem a espera de recompensas; é ter fé nas pessoas; é tornar perene a chama do amor refulgente.

Paixão por uma alma supostamente gêmea, paixão pelo trabalho, paixão pela família, paixão pelos estudos, paixão por qualquer coisa que represente significado é força capaz de impulsionar a humanidade à fertilidade de criação, à imaginação fecunda, ao surgimento de soluções, mesmo que inusitadas e improváveis. É bom conviver com seres apaixonados, entusiastas sem exageros, sem deslumbramentos assoberbados, mas com um brilho nos olhos que contagia e induz à caminhada, indica o rumo, inspira com a força dos iluminados. Que os santos protetores de todas as paixões, a despeito das dores e decepções próprias do nosso singular caráter humano, não permitam calar a voz e o coração dos apaixonados. Amém!

É isso aí!

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